Há goleadas que dão três pontos. E há goleadas que deixam perguntas.
O SC Vila Real venceu o GDC Salto por uns impressionantes 21-0, na 4.ª jornada da Divisão de Honra da AF Vila Real.
Um resultado que, por si só, já diz quase tudo sobre o que aconteceu dentro das quatro linhas.
Mas será que diz tudo sobre o que deve acontecer fora delas?
O Vila Real foi muito superior, marcou, marcou e continuou a marcar. Nada a apontar a quem entra em campo para competir e procura sempre o melhor resultado possível. O futebol não é um jogo de misericórdia e ninguém pode exigir a uma equipa que deixe de jogar ou de marcar.
Mas… 21-0?
Ao intervalo já estava 13-0.
Nessa altura, a partida estava mais do que decidida. O vencedor estava encontrado e a diferença entre as duas equipas era absolutamente evidente.
E é precisamente aqui que o futebol nos obriga a parar e pensar:
Não haveria outra forma de abordar a segunda parte?
Rodar jogadores menos utilizados. Dar minutos a quem normalmente não tem oportunidade. Experimentar outras soluções. Gerir o esforço. Transformar os 45 minutos finais numa espécie de treino competitivo.
Não seria desistir de ganhar.
Não seria desrespeitar a competição.
Seria, talvez, perceber que há momentos em que o resultado já não precisa de ser demonstrado mais vezes.
E atenção: isto não é uma crítica ao SC Vila Real. É uma reflexão sobre o futebol e sobre aquilo que queremos para as nossas competições.
Porque do outro lado estava um Salto que merece uma palavra.
O Salto perdeu 21-0. Mas não desistiu.
E talvez este seja o paradoxo desta história.
Uma equipa que sofreu 13 golos numa primeira parte, que tinha apenas dois suplentes, que sabia perfeitamente que já não havia qualquer hipótese de discutir o resultado… voltou ao campo.
Podia ter desistido.
Podia ter procurado qualquer forma de terminar o jogo mais cedo.
Podia ter baixado os braços.
Não o fez.
Os jogadores do Salto continuaram a correr. Continuaram a disputar os lances. Continuaram a tentar jogar futebol.
Até ao apito final.
Isso merece respeito.
Porque é muito fácil estar num campo de futebol quando tudo corre bem. Mais difícil é continuar quando o marcador está em 21-0.
Esses jogadores foram guerreiros.
E agora fica uma pergunta que é impossível não fazer:
Depois de uma derrota destas, como se recupera uma equipa psicologicamente?
É aqui que o 21-0 deixa de ser apenas um resultado.
Pode ser um número que fica na história.
Mas pode também ser um golpe profundo na confiança de jogadores que estão a tentar relançar um clube numa competição que não disputavam há vários anos.
E será que o problema é apenas do Salto?
Talvez não.
Porque este resultado deve levar também a AF Vila Real a olhar para a própria competição.
Na jornada anterior já tínhamos assistido a resultados de 6-0 e 7-0.
Uma goleada, isoladamente, faz parte do futebol.
Duas, três ou várias situações de enorme desequilíbrio já justificam outra pergunta:
Teremos uma Divisão de Honra verdadeiramente equilibrada?
E se existem diferenças tão grandes entre alguns dos clubes, será que o atual modelo competitivo é o mais adequado?
Não seria altura de discutir novas soluções?
Duas séries?
Uma primeira fase dividida geograficamente ou por níveis competitivos?
Depois, uma fase de apuramento de campeão?
Mais jogos equilibrados e competitivos?
Não estamos a dizer que esta é necessariamente a solução.
Estamos a dizer que alguma coisa merece ser discutida.
Porque uma competição também se mede pela capacidade que tem de proporcionar jogos competitivos, clubes sustentáveis e jogadores motivados.
O perigo dos 21-0
O perigo de um resultado destes não está apenas nos 21 golos sofridos.
Está no que pode acontecer no jogo seguinte.
Está na cabeça dos jogadores.
Está na confiança.
Está na vontade de continuar.
Está na capacidade de um clube que regressou à competição encontrar forças para dizer:
“Perdemos 21-0. Mas estamos aqui.”
E é precisamente isso que esperamos que aconteça.
Que o Salto não baixe os braços.
Que estes jogadores continuem a lutar.
Que o clube continue o seu caminho.
E que este resultado sirva para todos refletirem.
Ao SC Vila Real, mérito pela vitória e pela enorme eficácia.
Ao GDC Salto, respeito por ter ido até ao fim.
À AF Vila Real, fica o desafio:
Será que queremos continuar a assistir a resultados destes na nossa Divisão de Honra ou está na hora de repensar o modelo da competição?
Porque o futebol precisa de vencedores.
Precisa de golos.
Precisa de competitividade.
Mas também precisa de adversários que sintam que vale a pena continuar a lutar.
21-0 é um resultado.
Mas, talvez, seja sobretudo um sinal de alerta.