Início Opinião A época começa. E o exemplo também.

A época começa. E o exemplo também.

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Há um momento, todos os anos, em que milhares de crianças voltam aos clubes. Reabrem-se balneários, regressam os treinos e começam os jogos. Para muitas, será apenas mais uma época. Para outras, será o primeiro contacto com uma modalidade, uma equipa ou um treinador.

Algumas chegam com o sonho de serem campeãs. Outras querem simplesmente estar com os amigos.

Mas todas vão aprender alguma coisa.

A questão é saber o quê.

Uma nova época não começa apenas com inscrições, calendários e treinos. Começa também com os exemplos que os adultos vão dar.

Um clube é muito mais do que um lugar onde se pratica uma modalidade. Em muitas comunidades, é uma das instituições com maior valor social. É espaço de encontro, pertença, integração e aprendizagem. E grande parte desse trabalho é assegurado por pessoas que raramente aparecem nas fotografias: dirigentes voluntários, treinadores, colaboradores e famílias que dedicam tempo, energia e recursos para que o desporto aconteça.

É um trabalho muitas vezes invisível. Mas essencial.

E coloca-nos perante uma responsabilidade: que desporto estamos a oferecer às nossas crianças?

Os pais não precisam de ser treinadores. Não precisam de discutir táticas, convocatórias ou decisões de arbitragem. Precisam, sobretudo, de acompanhar, apoiar e incentivar.

E deixar os filhos desfrutar.

Talvez depois de um jogo a pergunta mais importante não seja «quanto ficou?», mas:

«Divertiste-te?»

Porque quando uma criança começa a acreditar que o resultado determina a satisfação dos pais, deixa de jogar apenas para si e começa a jogar para corresponder às expectativas dos outros.

É aqui que valores como respeito, lealdade e verdade deixam de ser palavras bonitas e passam a ser comportamentos.

Respeitar quando se ganha. Respeitar quando se perde. Reconhecer o mérito do adversário. Aceitar o erro do árbitro. Assumir os próprios erros. Saber ganhar sem humilhar e perder sem procurar culpados.

Parece simples.

Mas basta olhar para o desporto profissional, particularmente para o futebol, para perceber a contradição.

Queremos que as crianças respeitem os árbitros, mas mostramos-lhes adultos a pressioná-los. Queremos que saibam perder, mas assistimos a justificações permanentes. Queremos que respeitem o adversário, mas vemos treinadores, dirigentes e outros agentes transformarem a competição numa guerra verbal.

O desporto profissional, particularmente o futebol, é observado por quem ainda está a aprender.

Cada declaração, cada gesto e cada conflito chega às crianças através da televisão, das redes sociais ou das conversas em casa.

Não podemos exigir aos jovens aquilo que os adultos não estão dispostos a cumprir.

As crianças não aprendem ética apenas quando lhes explicamos o que está certo.

Aprendem-na quando nos veem fazer.

Por isso, o início de uma nova época é também uma oportunidade para começarmos de novo: clubes mais conscientes da sua responsabilidade educativa, treinadores que percebam que cada treino é também uma aula de vida, pais que apoiem sem pressionar e dirigentes que liderem pelo exemplo.

No fim da época haverá campeões, medalhas e classificações.

Mas haverá também crianças que terão aprendido a respeitar, a cooperar, a lidar com a frustração, a reconhecer o mérito dos outros e a competir com dignidade.

Talvez esse seja o verdadeiro campeonato que todos deveríamos querer ganhar.

Porque o maior resultado do desporto não aparece numa tabela classificativa.

Fica numa pessoa.

Que seja, para todos, uma excelente época desportiva. Mas, acima de tudo, uma época de que possamos ter orgulho naquilo que ajudámos a formar.

Vitor Santos (Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto)