Do erro ao julgamento público

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Rui Silva e os limites do debate sobre arbitragem

O que se seguiu ao jogo entre o CD Santa Clara e o Sporting CP, a contar para os oitavos-de-final da Taça de Portugal, ultrapassou o espaço legítimo da crítica desportiva e entrou num território que deve preocupar todos os que acompanham o futebol português: o da exposição pessoal excessiva e do julgamento moral sumário de um agente de arbitragem.

Uma decisão incorreta, com influência clara no resultado e na eliminatória, é plenamente criticável. O erro existiu, foi identificado, debatido e reconhecido em contexto institucional. Esse escrutínio é saudável e faz parte de um sistema que se quer transparente e em constante melhoria.

O problema surge quando a análise técnica dá lugar à construção de uma narrativa de descredibilização pessoal. Em vários espaços mediáticos, o foco deixou de estar no lance e passou a incidir no passado disciplinar do vídeo-árbitro Rui Silva, recuperando um episódio com quase duas décadas, apresentado de forma seletiva e sem o necessário enquadramento.

A afirmação repetida — “Rui Silva foi suspenso por 20 meses no Apito Dourado” — é reveladora dessa abordagem. Dita assim, induz conclusões erradas. Rui Silva não foi condenado por corrupção. Foi sancionado disciplinarmente por omissão nos relatórios da oferta de dois fios de ouro, de valor simbólico, por parte de um dirigente do Gondomar SC, na época 2003/04. Cumpriu a sanção há 17 anos.

Após esse período, integrou os quadros das ligas profissionais entre 2006 e 2016, prosseguiu a sua carreira na arbitragem e, após uma despromoção em 2023, afastou-se dos relvados, sendo posteriormente integrado como vídeo-árbitro. Estes factos são objetivos e verificáveis, mas raramente acompanhariam a acusação mediática com igual destaque.

Transformar uma sanção antiga, já cumprida, num instrumento de ataque pessoal não esclarece o público nem contribui para a melhoria da arbitragem. Pelo contrário, promove um clima de suspeição permanente, onde qualquer erro técnico é tratado como prova de indignidade moral.

Mais preocupante ainda é que esta narrativa tenha sido amplificada por comentadores e órgãos que se reclamam de rigor e equilíbrio editorial.

Convém recordar que Rui Silva é mais do que um vídeo-árbitro envolvido num erro. É natural de Vila Real, foi árbitro durante anos, é professor universitário na UTAD e é um cidadão com vida pessoal e profissional para lá do futebol. A exposição pública deve ter limites, sobretudo quando assenta em factos antigos e descontextualizados.

Lamenta-se igualmente a forma como o Conselho de Arbitragem da FPF geriu a comunicação institucional, deixando Rui Silva excessivamente exposto numa tentativa de proteção de terceiros. A defesa da arbitragem não pode fazer-se à custa do isolamento individual.

O futebol português nada ganha com este clima de julgamento público e desumanização. Criticar erros é essencial. Destruir reputações com base em meias-verdades não é. O debate sobre arbitragem exige mais rigor, mais contexto e mais responsabilidade.

Por Luis Roçadas